Wednesday, June 4, 2008

O futuro em jogo

STF retoma julgamento sobre a legalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias humanas


Uma verdadeira novela que se arrasta há três anos na justiça brasileira está próxima do fim. Nesta quarta, dia 28, o Supremo Tribunal Federal (STF) reinicia o julgamento da ação direta de inconstitucionalidade do artigo da Lei de Biossegurança, aprovada em 2005, que autoriza pesquisas com células-tronco embrionárias humanas. A sessão anterior, realizada em 5 de março, foi suspensa após o pedido de vista do ministro Carlos Alberto Menezes Direito.


Sede do Supremo Tribunal Federal em Brasília (foto: STF).



A ação foi proposta pelo ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles, em maio de 2005. O ministro relator Carlos Ayres Britto e ministra Ellen Gracie, presidente da corte na época do início do julgamento, votaram pela constitucionalidade das pesquisas. O 5º artigo da lei permite que embriões congelados há mais de três anos ou inviáveis para a implantação em útero sejam usados em pesquisas cientificas, desde que haja o consentimento dos pais. (Leia a análise de Renato Lessa sobre o papel do STF nessa decisão de caráter técnico-científico.)

Os defensores das pesquisas com células-tronco embrionárias enxergam nelas uma esperança de cura para doenças como mal de Parkinson, diabetes e artrose e de recuperação das seqüelas surgidas em conseqüência de lesões na medula espinhal e acidentes vasculares cerebrais. Porém, os estudos feitos com essas células em alguns países estão em seus primeiros passos, longe ainda de oferecer perspectivas concretas de cura ou melhoria para esses pacientes.

A demora no julgamento atrasa pesquisas sobre o tema em andamento. Para alguns pesquisadores, esse fator poderia tornar o Brasil defasado em relação a outros países no desenvolvimento de novas biotecnologias. “O atraso do Brasil em relação aos países do Primeiro Mundo pode nos tornar meros expectadores. No futuro, o país terá que importar essas novas tecnologias e, para isso, pagará uma fortuna”, avalia a geneticista Mayana Zatz, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

Alta capacidade de diferenciação
O potencial terapêutico das células-tronco de origem embrionária reside em seu alto poder de diferenciação – elas são classificadas como totipotentes ou pluripotentes, ou seja, podem se converter em vários tipos de tecidos. “As células-tronco embrionárias são o tipo mais versátil, e ao estudá-las, aprendemos muito sobre a biologia humana”, afirma a geneticista Lygia da Veiga Pereira, também do Instituto de Biociências da USP. “É preciso concentrar mais esforços para que não haja uma lacuna, um buraco negro, em relação ao desenvolvimento das pesquisas.”


Blastocisto humano de cinco dias. O aglomerado de células à esquerda é a fonte das células-tronco embrionárias, capazes de gerar neurônios, células cardíacas, cutâneas e de outros tecidos (foto: Centro Avançado de Fertilidade de Chicago, EUA).



O grande obstáculo para o uso das células-tronco embrionárias em pesquisas é o fato de sua extração acarretar a morte do embrião, o que leva muitos a enxergarem impedimentos éticos para tais estudos. Os que condenam as pesquisas alegam que a prática seria equivalente a um aborto, proibido por lei. Cientistas e pesquisadores afirmam, porém, que o embrião não tem qualquer resquício de célula nervosa nos primeiros 14 dias de gestação – período em que ocorreria a extração das células-tronco (leia um artigo de Roberto Lent sobre quando começa a vida humana).

Os opositores afirmam ainda que a liberação das pesquisas poderia dar origem a um comércio de embriões no país, embora a Lei de Biossegurança proíba esse tipo de negociação. Além disso, cerca de 98% dos embriões congelados há mais de três anos no Brasil são inviáveis tanto para a reprodução quanto para pesquisa, segundo dados apresentados por Zatz em palestra realizada na Academia Brasileira de Ciências, em abril. Os embriões usados para pesquisa, portanto, jamais chegariam à vida adulta.

O neurocientista Stevens Rehen, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta que o país já estaria em posição de desvantagem em relação a outros. “Estamos 10 anos atrasados e precisaremos correr atrás”, lamenta. “Em vários lugares do mundo já existem patentes que, caso venham a se tornar tratamentos, custarão muito caro para nós”.

Rehen destaca ainda que há poucos grupos atuando no Brasil com pesquisas sobre células-tronco. “Não há uma grande massa crítica. É preciso fomentar o aumento do número de grupos de pesquisa”, afirma. “É preciso dar liberdade às pesquisas, desde que sejam realizadas de forma ética”, completa o pesquisador, que coordena o Instituto Virtual de Células-Tronco.

Pouco potencial das células adultas
Algumas linhas de pesquisa tentam contornar as barreiras éticas ligadas ao uso das células-tronco embrionárias humanas. No Brasil e no mundo, várias iniciativas buscam usar com fins terapêuticos as células-tronco adultas, encontradas na medula óssea, no sangue, na placenta e no cordão umbilical. Resultados satisfatórios têm sido obtidos nesses estudos, mas a menor capacidade de diferenciação das células adultas restringe seu potencial terapêutico.

Um outro tipo de abordagem desenvolvida recentemente consiste na reprogramação de células-tronco adultas para que elas voltem a atuar como embrionárias. No entanto, essa técnica esbarra em obstáculos como o risco de câncer associado ao procedimento e a imperfeição do método de inserção dos novos genes usados na reprogramação.

A questão das pesquisas com células-tronco embrionárias divide a sociedade e provavelmente não será encerrada caso o resultado do julgamento seja anunciado nesta quarta. A polêmica envolve a discussão sobre quando começa a vida, questão de difícil resposta, sejam quais forem os critérios adotados. Enquanto o resultado não for anunciado, continuará incerto o futuro das pesquisas que buscam tratamentos para diversas doenças.


Igor Waltz
Ciência Hoje On-line
27/05/2008

Thursday, May 22, 2008

Uma segunda chance

Se o aquecimento global causasse a extinção de espécies, as arqueas permaneceriam no planeta


A imprensa noticiou recentemente o diálogo entre duas pessoas preocupadas com o aquecimento global e com o destino da Terra. Uma expressou seu pessimismo dizendo que, se nenhuma providência enérgica fosse tomada imediatamente, o planeta acabaria. Tal previsão foi imediatamente contestada pela outra pessoa, para a qual o planeta continuaria a existir muito bem, mas certamente uma boa proporção dos seres vivos, entre eles a espécie humana, deixaria de existir.


As arqueas são seres unicelulares que conseguem viver em condições extremas, não toleradas por qualquer outro organismo. A arquea Deinococcus radiodurans (na imagem) é capaz de resistir a enormes níveis de radioatividade (foto: Wikipédia).


Independentemente de mudanças climáticas, o processo da evolução implica a extinção de espécies, o que ocorre a uma taxa relativamente constante. Acredita-se, por exemplo, que mais de 90% das espécies que viveram na Terra já estejam extintas. No entanto, não há dúvida de que uma alteração radical no ambiente, como a que se anuncia para as próximas décadas, produziria mudanças catastróficas e súbitas na biosfera. Haveria extinções em massa, semelhantes às ocorridas durante períodos de glaciação e de aquecimento do planeta, ou às que resultaram de colisões com asteróides gigantes, como parece ter ocorrido na península do Yucatán, no México. Esse evento é a base de uma das hipóteses para explicar a extinção dos dinossauros. Outra hipótese envolve vulcanismo intenso, concomitante com o choque do asteróide.

Se de fato estivermos diante de uma catástrofe iminente, seria possível prever que espécies permanecerão na Terra? Definitivamente, sim. Embora tais palpites sempre sejam arriscados, em virtude da extensa rede de interações que se estabeleceu entre os seres vivos, pode-se arriscar uma ‘barbada’. Com quase toda certeza as arqueas, seres unicelulares em parte semelhantes às bactérias e em parte únicas, herdarão o planeta. Ou melhor, continuarão a existir aqui, como fazem há mais de 3,5 bilhões de anos, sem se importar com questões climáticas ou com as recentes ações deletérias dos humanos.

Quem são esses seres especiais? São microrganismos que vivem em praticamente todos os ambientes terrestres e marinhos, na ausência de luz ou de oxigênio e por vezes sob altíssimas pressões e temperaturas. Entre as cerca de 90 espécies já catalogadas, descobriu-se que muitas arqueas conseguem viver em condições extremas, não toleradas por qualquer outro organismo. Ambientes de grande salinidade ou acidez, por exemplo, seriam considerados estéreis se não fosse a presença de arqueas halofílicas (que preferem sal ou ácido). Águas com temperatura próxima à do ponto de ebulição ou abaixo do ponto de congelamento são os ambientes prediletos de arqueas hipertermofílicas e psicrofílicas, respectivamente. Seus metabolismos estão perfeitamente ajustados a tais condições, o que reflete a grande plasticidade das proteínas que as compõem.

As arqueas não param por aí. Com seus ‘superpoderes’, resistem ainda a enormes níveis de radioatividade, muito além dos que seriam letais para plantas e animais. A arquea Deinococcus radiodurans, por exemplo, é capaz, como o nome sugere, de regenerar seu DNA rapidamente após receber uma dose radioativa que reduz o genoma a pequenos fragmentos, e continua a viver e a se reproduzir como se nada tivesse acontecido. São conhecidos hoje tantos feitos das arqueas que é razoável admitir que elas poderiam colonizar ou ter colonizado qualquer planeta com condições similares às da Terra primitiva. O cenário marciano, por exemplo, parecido com o do deserto chileno de Atacama (o ambiente mais seco da Terra), poderia abrigar tais microrganismos em camadas do solo próximas à superfície, como ocorre em Atacama. Em breve saberemos.

O conhecimento sobre as arqueas, porém, não deixa de ser reconfortante para o Homo sapiens. Podemos especular, sem muito medo de errar, que as arqueas foram as células que deram origem, na Terra, a todas as outras formas de vida. Diante de tamanha resistência, é certo também que, após a nossa extinção, as arqueas permanecerão neste planeta até que o Sol termine seu ciclo estelar, daqui a cerca de 5 bilhões de anos. Há, portanto, tempo suficiente para um novo ciclo de evolução, que teria, digamos, de 2 a 3 bilhões de anos. Se os caminhos evolutivos forem parecidos com os que conhecemos agora, talvez surja uma segunda versão humana. Quem sabe esta será mais ecológica?


Franklin Rumjanek
Instituto de Bioquímica Médica
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Levantamento revela que mais de 40% da vegetação nativa da região estão preservados

Levantamento revela que mais de 40% da vegetação nativa da região estão preservados
Uma boa notícia nos pampas Remanescentes de vegetação do bioma pampa no Rio Grande do Sul: campestre, florestal e mosaico floresta-campo. A linha vermelha estabelece os limites entre os pampas, na parte meridional, e a mata atlântica (mapa elaborado pelo Centro de Ecologia da UFRGS a partir de imagens de satélite). Todos os anos, ambientalistas, biólogos e afins anunciam estimativas alarmantes sobre a devastação da vegetação nativa do sul do Brasil. Os números são cada vez mais assustadores. Mas qual a origem desses dados? Por incrível que pareça, boa parte deles resulta de aproximações imprecisas – e muitos não passam de mero chute. A partir de agora, no entanto, erros grosseiros não mais deverão ocorrer, ao menos no que diz respeito ao Rio Grande do Sul, onde se concluiu recentemente o trabalho técnico intitulado Mapeamento da Cobertura Vegetal do Bioma Pampa, conduzido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). O estudo, iniciado em 2004, baseou-se em imagens fornecidas pelo satélite norte-americano Landsat, obtidas entre 2001 e 2003. Muito mais do que apenas levantar dados confiáveis, o projeto permitirá desenvolver novas políticas sustentáveis para a região, bem como definir novas áreas de preservação e facilitar a fiscalização ambiental. O mapeamento procurou, inicialmente, estimar quanto ainda resta de vegetação nativa no bioma pampa. Localizado na porção meridional do Rio Grande do Sul, esse bioma se caracteriza por formações vegetais predominantemente de campo, embora também possua áreas de floresta. Os mapas poderão indicar um panorama geral do impacto exercido pelas atividades humanas na região, criando condições para se elaborar um novo planejamento de ocupação. Uma das conseqüências imediatas do projeto é que os pesquisadores terão ferramentas melhores para instruir produtores locais ainda este ano. O objetivo é criar sintonia entre manejo ambiental e desenvolvimento econômico. Dados ultrapassados As imagens de satélite usadas no último mapeamento contínuo realizado no Brasil eram da década de 1970. Bastante desatualizado, esse mapeamento limitava estudos mais precisos sobre a condição atual dos ecossistemas. E sabe-se que nos últimos 30 anos muita coisa mudou no sul do país. Até 2007, não havia dados oficiais sobre o bioma pampa, e o novo mapeamento trouxe uma notícia auspiciosa: 41% da cobertura vegetal nativa da região – a maior parte composta por campos – ainda estão preservados. “É um número considerável”, estima o geógrafo Heinrich Hasenack, um dos responsáveis pelo estudo. Por mais paradoxal que isso pareça, a boa nova se deve à pecuária. Segundo Hasenack, nos pampas a atividade é mais sustentável, uma vez que, na região, ela tem sido praticada em sua forma tradicional, isto é, com animais criados de forma extensiva sobre pastagens nativas. Isso foi possível porque os pampas possuem áreas de pastagem natural muito ricas, com grande quantidade de espécies vegetais que proporcionam uma alimentação diversificada para o gado. É, portanto, um local privilegiado para os produtores. Assim, não há necessidade de devastá-lo. “Não se pode reproduzir artificialmente tamanha diversidade”, explica o geógrafo da UFRGS. Paisagem do espinilho (tipo de vegetação campestre dos pampas) no extremo oeste do Rio Grande do Sul, no município de Barra do Quarai. Para mapear os pampas, o MMA, com o apoio de outras instituições nacionais, desembolsou cerca de R$ 200 mil. Segundo o diretor do Departamento de Conservação da Biodiversidade do ministério, Bráulio Dias, a iniciativa faz parte de uma ação mais abrangente, que incluiu os outros cinco biomas brasileiros – Amazônia, mata atlântica, cerrado, caatinga e pantanal –, cujo mapeamento completo custou R$ 3 milhões. Os estudos de mapeamento da cobertura vegetal dos biomas fazem parte do Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira (Probio), do MMA, cujo valor total é superior a US$ 20 milhões. Desse montante, metade veio de uma doação do Fundo para o Meio Ambiente Global (GEF), por intermédio do Banco Mundial, e o restante de recursos disponibilizados pelo governo brasileiro.

Henrique Kugler Especial para a CH On-line/ PR 10/03/2008